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Experiências de redes alternativas na América Latina: Reflexões e aprendizados do #ShiftThePower Summit

11 Jun 2024

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Recentemente visitamos o Museu do Ouro em Bogotá na Colômbia, onde tivemos a oportunidade de conhecer mais profundamente os saberes ancestrais dos povos originários pré-colombianos, seus modos de vida e suas relações com a natureza. A visita às exposições e coleções arqueológicas de ourivesaria do Museu aflorou também as aprendizagens que tivemos durante o #ShiftThePower Global Summit, realizado pela primeira vez na América Latina em dezembro de 2023. O Summit foi uma oportunidade para nos reunirmos com colegas, parceiros e outros atores do ecossistema filantrópico para dialogarmos sobre como as mudanças sistêmicas acontecem, por meio de comunidades resilientes e o respeito às práticas locais. Um espaço onde pudemos aprender uns com os outros, celebrar as nossas conquistas como movimento #ShiftThePower e sonhar com um futuro mais justo e inclusivo.

O evento #ShiftThePower Global Summit, propôs pensarmos coletivamente sobre ‘possibilidades frente à crise, reconhecendo que novas formas de decidir e de fazer estão a emergir em todo o mundo (…) sob a forma de novas práticas, novos arranjos institucionais, novos modelos de organização e novos tipos de poder em rede, todos centrados na equidade, na dignidade, na confiança e no poder inerente às comunidades (Global Fund for Community Foundations)”. Com um olhar para estes novos tipos de poder em rede, realizamos uma atividade e destacamos histórias e aprendizagens significativas que reforçam a importância e a influência desses arranjos na América Latina para a mudança social sistêmica.

A atividade ‘Alternative ways of organizing to #ShiftThePower: What can we learn from networked experiences in Latin America?’ proposta por nós, Mariane e Aghata, da Carduma Social, foi uma destas oportunidades de diálogo e reflexão, reunindo mais de 60 pessoas próximas e outras, que por meio desta atividade, conheceram o Movimento #ShiftThePower. Além de um mapeamento colaborativo de experiências em rede da América Latina, foi possível criar espaços de conexão, reflexão e construir conhecimento coletivo, o que motivou a escrita deste artigo.

 

Redes como formas alternativas de organizar

Antecedendo o Summit, dezesseis conversas com integrantes do Movimento #ShiftThePower aprofundaram nossas reflexões sobre articulações em rede e filantropia comunitária na América Latina. Elas também resultaram em indicações de experiências de articulação em rede com histórico de mudanças sistêmicas na América Latina. A partir dessas indicações, realizamos dois diálogos virtuais com cinco experiências em rede da Colômbia, Brasil, Venezuela e Guatemala. Alguns participantes dessas experiências foram ao Summit na Colômbia, o que nos permitiu estreitar ainda mais nossos laços e relações.

Apesar de estarem em diferentes países e contextos, estas cinco redes compartilham características comuns: possuem uma forma de organizar horizontalizada, são informais e se autorganizam a depender do contexto e demanda coletiva, possuem um escopo comunitário, resultando em um processo de articulação entre diferentes pessoas, grupos e/ou organizações em torno de demandas, valores, crises ou objetivos comuns.

Percebemos juntos também que as consequências de nossa história de colonização ainda são latentes e visíveis. Violência, desigualdades sociais, exploração e injustiças persistem em nossos territórios na América Latina. Tamanha complexidade requer trabalho coletivo, e reconhecemos que essas articulações em rede possuem a possibilidade de criar novas formas de enfrentar estes desafios. Suas histórias mostram que diferentes atores comunitários, conectados em rede, estão mudando as suas próprias realidades. Eles são chamados a agir e participar com base na forma como os desafios e sonhos das suas comunidades os afetam. Por meio de suas interações fluidas, inspiram maneiras alternativas de organizar, aprendem uns com os outros, formam redes de apoio e cuidado mútuo para preservar conhecimentos ancestrais, resistir às injustiças socioambientais e criar uma cultura de paz em contextos de violência e intolerância.

Como exemplo, destacamos a articulação das Mulheres Tecedoras e Artesãs da Guatemala, formada por mais de vinte conselhos e indivíduos que lutam para proteger a propriedade intelectual coletiva dos tecidos huipil, preservar a arte ancestral Maia e sua cultura, em um contexto em que empresas da indústria têxtil tem se apropriado de seus trabalhos: “estamos lutando contra as indústrias que chegaram para desvalorizar todo este conhecimento ancestral(…) este conhecimento tem muitos anos e não queremos que ele se perca” (Negma). Em relação ao modo de organizar em rede, realizam reuniões semanais recorrentes e participam de oficinas formativas para se manterem em constante aprendizagem. Já as práticas de resistência se manifestam por meio de ações de advocacy – projetos de leis e protestos artísticos pacíficos, como os que foram realizados em frente à sede central do Ministério Público na capital guatemalteca em 2023. A percepção de identidades fundamentadas na fortaleza das sabedorias ancestrais indígenas e suas tradições, ressalta o papel da arte como símbolo de resistência. Esta organização coletiva também contribui para a disseminação do conhecimento ancestral dos povos originários que vem sendo desvalorizado ao longo dos anos: “as pessoas consideram os indígenas como se fossem pessoas sem cultura, sem educação, sem história” (Negma).

Assim como na conversa com a rede da Guatemala, a visita ao Museu do Ouro nos oportunizou um mergulho na riqueza dos saberes ancestrais indígenas. Lá, conhecemos uma filosofia complexa e profunda, modelada em ouro pelos artesãos indígenas, os quais abordam conhecimentos sobre a humanidade, as relações dos homens entre si e com a natureza. As peças em ouro, para os povos originários, não eram, como no mundo moderno, joias para realçar a vaidade individual, mas objetos com valores simbólicos e sagrados que integravam rituais religiosos e momentos importantes para toda a sociedade (Museo del Oro, 2005).

Segundo a publicação ‘Oro de Colombia: Chamanismo y Orfebreria’, a colonização do território que hoje denominamos de América Latina, por volta dos anos de 1500, marcou o término do desenvolvimento independente destas diversas culturas dos povos originários e de toda a sua produção metalúrgica. Grande parte do ouro e da arte foi saqueada e derretida para formar barras de ouro (Museo del Oro, 2005). O mito do El Dorado, apresentado nas exposições no Museu do Ouro, é uma representação da exploração colonial e das narrativas construídas em torno da colonização. Heranças tristes da nossa história que seguem presentes em nossos territórios latinoamericanos, ecoando nos motivos de luta, defesa de direitos e resistência da sociedade civil organizada.

Além dos efeitos sobre a vida dos povos originários, diversos países da América Latina também sofreram com um modelo de colonização escravocrata, marcas que até hoje se expressam em profundos problemas e desigualdades sociais. A sociedade civil, por meio de suas articulações em redes, também se organiza para lutar pela equidade racial e promover direitos da população negra em seus territórios de atuação, como o exemplo da Rede Sanfoka, formada por organizações quilombolas de Morro do Chapéu, localizado no interior da Bahia, Brasil. Sua luta é por uma educação quilombola, antirracista de qualidade: “queremos afrocentrar os ensinamentos e recuperar os saberes ancestrais de nossos povos” (José Brito).

As integrantes do Conselho Consultivo de 24 mulheres negras, campesinas e indígenas de Cauca, da Colômbia, possuem uma luta similar: “na sociedade colombiana pensam que as mulheres negras só servem para cozinhar, dar à luz e criar os filhos de outras mulheres mais preparadas do que nós”, mas “cada uma de nós, a partir do nosso entorno, viemos nos fortalecendo. Cada uma sente admiração uma pela outra. Estamos resistindo e criando uma irmandade de valores” (Marly).

Marly compartilhou que as mulheres de sua região são resilientes. “Se caímos, quando temos que levantar (…) continuamos. Porque se ficarmos no chão não vale a pena (…).” Este sentimento também é compartilhado pela REDiálogo, uma rede de mulheres da Venezuela que se uniram para fortalecer a cultura de paz e o papel fundamental das mulheres nos processos de negociação e em espaços de tomada de decisão. Nesse sentido, Alba ressalta a importância de estarmos conectadas em espaços que contribuem para romper as barreiras e para ter maior poder de influência em outros níveis para além do local: “Pensar e ver como se é possível encontrarmos nas diferenças” (Alba).

No Museu do Ouro conhecemos o símbolo de uma serpente em espiral de duas cabeças que representava o movimento cíclico do tempo e da constante renovação da vida, pois se acreditava que, ao trocar a pele, a serpente nascia de novo e nela surgia um novo anel (RINCÓN, L.H.B. El lenguaje simbólico de las formas precolombinas. Universidad Nacional de Colombia, 1999)

Este movimento de luta, resiliência e renovação inspira e está presente nas práticas destas redes que lutam para mudar os sistemas de poder e de injustiças: “quando me perguntam quando você se tornou uma líder comunitária, penso imediatamente que a liderança nasce na América Latina por causa do sofrimento, por causa do sofrimento do outro e essa é uma história que se quer mudar. Vou começar a cantar porque preciso mudar esse sistema, e pensar que estou tentando alguma coisa” (Viviana). Neste sentido, Dona Jô, integrante da Aliança Comunitária de Uruçuca, Brasil, afirma “é isso que move a gente, é ver o bem-estar do nosso próximo”.

Ao mesmo tempo que há resistência, um sentimento de medo segue presente na realidade de muitas redes latinoamericanas, mas conforme relataram as participantes, ele não é capaz de frear a luta. “Na América Latina, conflitos e situações difíceis têm sido uma constante, mas nós, no nosso DNA, temos um sistema de luta. Ou seja, nunca pensamos que não conseguiremos” (Viviana).

Essas experiências em rede nos mostram que de forma muito criativa, e por meio da arte e da cultura, conseguimos encontrar formas de nos expressar e de lutar coletivamente: “a arte nos permite denunciar, aprender, falar do nosso cotidiano como povos indígenas e dizer ao mundo que estamos vivos e continuamos resistindo e propondo” (Noé).

Além de serem veículos de luta por direitos e resistência, muitas redes se configuram na América Latina como espaços de ajuda mútua, cooperação, construção de laços e cooperação, como no exemplo da Aliança Comunitária, localizada em Uruçuca, litoral do estado da Bahia, Brasil. As organizações que integram a rede se uniram para apoiar pessoas em vulnerabilidade social, especialmente frente a crises como enchentes e situações decorrentes do covid-19. Além disso, realizam ações de advocacy e juntos gerenciam um fundo comunitário voltado para a saúde da população: “somos um conglomerado de muita gente fazendo coisas”. Uma das percepções e aprendizados dos integrantes é que os momentos de crise são um chamado à soma de forças e mobilização em rede, mas que gostariam de permanecer juntos para além das catástrofes. Também destacam o reconhecimento do território na força do protagonismo das redes de base, o que também o que causa também desconforto nas estruturas de poder já consolidadas.

Os diálogos e trocas realizadas com estas experiências em rede da América Latina nos ensinam sobre formas de organizar, as quais envolvem no marco da democracia: luta política, aprendizagem coletiva, reflexão crítica, ajuda mútua, valorização dos saberes ancestrais, resistência, luta por direitos, afetos e apoio mútuo. Ao mesmo tempo, a visita ao Museu nos relembrou sobre a importância de preservarmos os conhecimentos e valorizarmos comunidades tradicionais e suas diferentes práticas. Valorizar nossas raízes históricas contribui para construir um futuro mais justo e inclusivo, alinhado com princípios da solidariedade, resiliência e luta por direitos, temas destacados nas atividades que tivemos antes e durante o #ShiftThePower Global Summit na Colômbia.

Estas reflexões se conectam também com os conceitos e princípios do campo prático-teórico da Filantropia Comunitária, que continua, ao nosso ver, em constante expansão, como um campo “vivo”. Muitas das organizações que integram estas experiências em rede praticam filantropia comunitária. Por meio dos diálogos, aprendemos que “Pak uch” é uma palavra Maia que significa ajuda mútua entre famílias e vizinhos, e que continua sendo usada na comunidade Chi Xot, em Comalapa, Guatemala. Apesar de se ajudarem entre si, os participantes também ressaltaram a dificuldade das redes locais em acessarem financiamentos: “os editais são muito complicados. Vemos a demanda para se inscrever e depois ficamos presos para executar. Temos que viver a vida em função do edital. Antes, durante e depois” (Mara). A conversa sobre a prática do Pak uch e a troca sobre mobilização de recursos em rede exemplifica a riqueza de aprendizado e inspiração que surge quando experiências globais e locais são conectadas.

Há muitos sistemas organizados de apoio coletivo na América Latina, que ampliam a concepção de ‘rede’ utilizada no Norte Global. No mapeamento coletivo, destacamos diferentes nomes que são utilizados para se referir a estas articulações coletivas: Aliança, Plataforma, Redes Territoriais, Redes Comunitárias, Comunidade de Prática, Círculo territorial, Coalizão.

Finalizamos este artigo com novas questões que foram suscitadas a partir desta atividade. Um convite à reflexão, para valorizarmos as práticas e saberes locais de doação e de ajuda mútua.

 

Um convite à reflexão

Os diversos diálogos, conversas trocas e interações que permearam a realização desta atividade, suscitaram algumas perguntas reflexivas:

  • Como as redes podem contribuir para construção de uma sociedade civil global e de um sistema de financiamento que aproveita e mobiliza solidariedade e recursos de forma que centram a dignidade, a equidade e a justiça para todos?
  • Percebemos uma concentração de redes no Brasil, Colômbia e México no Movimento #ShiftThePower. Enquanto movimento, queremos expandir para alcançar e engajar redes de outros países?
  • Como aproximar organizações que estão distantes do Movimento #ShiftThePower e das oportunidades de troca entre pares?
  • Como definir o conceito de rede e de filantropia comunitária a partir da visão latino-americana?
  • Até que ponto as redes verticais estão construindo capital social que continua fluindo? Como gerenciamos estes fluxos?
  • Como seria uma arquitetura de suporte de redes?

 

Sobre as 48 experiências de articulação em rede na América Latina mapeadas
Além dos diálogos realizadas com estas cinco experiências em rede, foram mapeadas colaborativamente por meio do Movimento #ShiftThePower 48 redes Latinoamericanas:

  • Redes formais e informais.
  • De escopo nacional (41,7%, 20), de escopo territorial/comunitário (35,4%, 17) e internacional ( 22,9%, 11).
  • Experiências em rede do Brasil, Colômbia e México, representam 65% das mapeadas.
  • Experiências da Costa Rica, Equador, Guatemala, Panamá e Venezuela além de redes internacionais que envolvem organizações de diversos países da América Latina (35%).

Mapa de Experiências em Rede no Kumu, Mapa de Experiências em Rede no Google Maps.

 

Autoras: Mariane Maier Nunes e Aghata Gonsalves (Carduma Social)

Colaboradores: Viviana Cuchillo, Marly Yaneth, Negma Coy, Robson Bittencourt, Kamala Aymara, Mara Campos, Joselita Machado (Dona Jô), Sirlene Santos, José Rosa de Brito, Eliana Santos do Rosário Neri. 

 

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Resultados gerais: Alternative ways of organizing to #ShiftThePower: What can we learn from networked experiences in Latin America?

Conversas com integrantes do Movimento #ShiftThePower 

  • Realizamos 16 conversas com aliados e membros de experiências em rede na região, a maioria parte do Movimento #ShiftThePower. Participaram 28 pessoas de 6 países – Colômbia, Brasil, Venezuela, Guatemala, México e Costa Rica.
  • Elas foram foram fundamentais para a troca de ideias, indicação de experiências e o fortalecimento das conexões entre os participantes.

Mapeamento

  • Com base nos diálogos realizados e em um formulário compartilhado no blog do GFCF enviado a todos os inscritos no Summit (da América Latina), mapeamos 48 experiências em rede na região entre outubro e dezembro de 2023.
  • Esse mapeamento demonstra nossa diversidade: redes locais, territoriais, nacionais e internacionais de diversas organizações e pessoas, unindo-se para responder a crises, defender direitos, trocar práticas e aprender juntas.
  • Esta atividade foi realizada com o espírito de construção e fortalecimento de relações e vínculos. Nesse sentido, todas as experiências podem ser visualizadas em dois mapas distintos: um georreferenciado e um mapa onde podem ser monitoradas as relações entre as pessoas participantes e as experiências da rede indicadas.

Diálogos entre pares com experiências em rede
Foram facilitados dois webinars online de diálogos entre pares, entre cinco experiências em rede da Guatemala, Venezuela, Colômbia e Brasil (em espanhol e português):

Diálogo de troca entre pares: Rede Sankofa & Aliança Comunitária de Serra Grande, Uruçuca (Brasil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diálogo de troca entre pares: Mulheres Tecedoras e Artesãs da Guatemala (Guatemala); REDiálogo (Venezuela); Conselho Consultivo de Mulheres de Cauca; Viviana Cuchillo (Colômbia)

 

 

 

 

 

 

 

 

Um agradecimento a todos que participaram desta atividade, incluindo os aliados e membros do Movimento #ShiftThePower!

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