A Hungria aponta o caminho
30 Apr 2026
Este blog foi publicado originalmente na Alliance Magazine.
Havia uma atmosfera de incredulidade entre as multidões de eleitores e eleitoras de primeira viagem que dançaram pelas ruas de Budapeste nas primeiras horas do dia 13 de abril. Celebrações eclodiram por toda a cidade após o líder da oposição, Peter Magyar, derrotar Viktor Orbán, o primeiro-ministro de longa data. Foi um momento raro que abriu as portas para um futuro diferente.
Durante 16 anos, a sociedade civil foi sufocada pelo avanço do autoritarismo de direita, pela restrição da dissidência política e pela solidariedade sendo colocada como ameaça. Ainda assim, a derrota de Orbán desafia a sensação de inevitabilidade que cerca o governo iliberal. Como a história mostra, o poder nunca é fixo: as pessoas se cansam, as ideias enfraquecem e a renovação política torna-se possível. A mudança é sempre viável quando as pessoas se organizam.
Mais do que uma vitória eleitoral, trata-se de uma conquista enraizada na sociedade civil — mas não no sentido restrito de uma atuação conduzida por ONGs organizadas. Em vez disso, surgiu da sociedade civil – aqui entendida como um espaço vivo – onde pessoas locais se reúnem, debatem e atuam sobre as questões que atravessam suas vidas. Magyar e sua equipe souberam acessar essa corrente mais profunda, levando a campanha, de forma incessante, para além de Budapeste, alcançando pequenas cidades e vilarejos frequentemente ignorados. Ao contornar o foco de Orbán em conspirações globais e guerra, e ao abordar preocupações cotidianas — empregos, saúde e escolas —, eles remodelaram o terreno político a partir da base.
“Como a história mostra, o poder nunca é fixo: as pessoas se cansam, as ideias enfraquecem e a renovação política torna-se possível. A mudança é sempre viável quando as pessoas se organizam.”
A sociedade civil organizada desempenhou um papel silencioso, mas vital. ONGs e financiadores de base comunitária, como Roots and Wings Foundation, ajudaram a sustentar a esperança durante anos difíceis, apoiaram indivíduos corajosos e defenderam os direitos daqueles que eram alvos do poder opressivo. Mas não cabia a eles/elas liderar essa revolução conduzida por pessoas comuns — aquelas fora dos mundos da consultoria política, do ativismo profissional ou da liderança institucional — que simplesmente queriam um país mais digno. O que emergiu foi uma ampla coalizão com uma nítida intenção política: conquistar o poder e governar de maneira diferente.
Isso sugere uma lição exigente a ser aprendida pela sociedade civil em outros contextos. Quando a própria democracia está sob ameaça, manter distância da política deixa de ser suficiente. A recomposição democrática pode depender de ir além das zonas de conforto institucionais, de se engajar em uma arena cívica mais ampla e de adotar uma visão abrangente de sociedade civil, que inclua cidadãos / cidadãs, grupos comunitários, associações, sindicatos, movimentos sociais e atores políticos. A experiência húngara sugere que a resistência democrática é mais potente quando se distribui, se constrói nas relações e atravessa a vida cotidiana, e não quando é rigidamente organizada de cima para baixo — é menos um movimento único e mais uma recusa coletiva, disseminada por toda a sociedade, em aceitar os termos da opressão.
Em um livro a ser publicado, A New World is Rising, Barry Knight mostra que as transformações políticas raramente foram concedidas de cima para baixo e sempre implicaram o envolvimento e a coragem coletiva de pessoas comuns demandando mudanças.[1] Em seu discurso comemorando o aniversário da emancipação da escravidão nas Índias Ocidentais em 1853, Frederick Douglass afirmou: “Se não há luta, não há progresso.”[2]
“Resistência democrática é mais potente quando se distribui, se constrói nas relações e atravessa a vida cotidiana, e não quando é rigidamente organizada de cima para baixo — é menos um movimento único e mais uma recusa coletiva, disseminada por toda a sociedade, em aceitar os termos da opressão.”
Um dos primeiros campos em que essa luta se desenrola é na reconstrução da legitimidade democrática. Movimentos de extrema direita frequentemente se alimentam de queixas reais — precariedade econômica, desenraizamento cultural, desconfiança institucional —, mas redirecionam essas reclamações para fins excludentes.
A sociedade civil não pode responder apenas denunciando tais movimentos; ela deve enfrentar as condições subjacentes que os tornam possíveis. Isso envolve reinscrever a vida democrática na experiência cotidiana: por meio da organização local, da ajuda mútua e de formas participativas de tomada de decisão que sejam capazes de restaurar o senso de agência e pertencimento — como assembleias comunitárias, plataformas de mídia independentes e redes de base. Essas atividades tornam-se parte da infraestrutura democrática central.
Ainda assim, a reconstrução democrática não pode ocorrer isoladamente. Uma das estratégias definidoras da extrema direita contemporânea é a de dividir a oposição, cultivando cuidadosamente antagonismos entre grupos que poderiam, de outra forma, encontrar causas comuns. Trabalhadores/as são colocados contra migrantes, ambientalistas contra comunidades rurais, defensores/as da justiça racial contra pessoas ansiosas pelas mudanças sociais. Em resposta, é fundamental que a sociedade civil consiga se engajar no árduo e frequentemente frágil trabalho de construir articulações e espaços de diálogo através das diferenças.
Para serem eficazes, tais coalizões devem ser mais do que alianças táticas; devem aspirar à “Comunidade Amada” de Martin Luther King, que implica uma “revolução radical de valores” capaz de reconhecer que a luta de cada um está ligada à dos outros. A linguagem da interseccionalidade, desenvolvida em contextos feministas por Kimberlé Crenshaw, oferece um quadro analítico para esse trabalho, mas sua realização depende da prática: do cultivo de relações capazes de sustentar tensões e dissensos sem se desfazer ou fragmentar.
É dessa forma que uma narrativa simples para a transformação sistêmica pode ser desenvolvida e levada adiante. A extrema direita construiu uma história de declínio, ameaça e perda de pertencimento que ressoa com as ansiedades vividas pelas pessoas comuns. Uma sociedade civil “progressista” que está constantemente em conflito consigo mesma não consegue construir uma narrativa que vá além de interesses concorrentes — e uma narrativa assim nunca obterá amplo apoio da população. A mensagem é nítida: “divida-se, e você será governado”.
O movimento #ShiftThePower utiliza o conceito de poder para unificar diferentes interesses. Em vez de tratar separadamente racismo, pobreza, meio ambiente, desigualdade de gênero ou deficiência, ele busca transformar o sistema operacional da sociedade que sustenta todas essas injustiças.
“Uma sociedade civil ‘progressista’ que está constantemente em conflito consigo mesma não consegue construir uma narrativa que vá além de interesses concorrentes — e uma narrativa assim nunca obterá amplo apoio da população.”
Essas perspectivas fundamentam o artigo recente de Graciela Hopstein, A Crise da Democracia e da Sociedade Civil: Desafios e Perspectivas no Contexto do Movimento #ShiftThePower. O texto demonstra a importância central da sociedade civil na consolidação da democracia. No Brasil, por exemplo, as organizações e movimentos sociais têm demonstrado uma resiliência histórica tanto na defesa da democracia quanto na busca por soluções perante a crise, mesmo diante, nos últimos anos, de ataques à sua reputação, criminalização e de desafios à sua sustentabilidade política e financeira.
O artigo conclui que sair dos processos de autocratização exige recomeçar de baixo para cima, isto é, a partir das comunidades, dos territórios, das dissidências e das lutas. Sem dúvida, essa foi a perspectiva central que guiou o desenvolvimento deste trabalho: destacar as filantropias comunitárias e decoloniais como visões estratégicas para imaginar saídas para a crise e construir futuros possíveis.
Essa perspectiva dá novo impulso ao movimento #ShiftThePower. Com base no que foi alcançado na Hungria, precisamos ver o que pode ser feito em outros contextos, começando pelo Brasil. Aqui, atores conservadores e de extrema direita construíram ecossistemas organizacionais densos. Redes religiosas expandiram seu alcance e influência. Narrativas sobre família, nação e identidade estão sendo ativamente construídas e disseminadas, frequentemente com recursos significativos e coordenação.
Ao mesmo tempo, a sociedade civil progressista está sob pressão. Cortes de financiamento, impulsionados tanto por retração política quanto por pressões econômicas, estão enfraquecendo as instituições. A competição por recursos intensifica a fragmentação. Práticas de doadores, muitas vezes de forma não intencional, contribuíram para a burocratização e despolitização. A mobilização coletiva tem dificuldade em acompanhar a escala do desafio. A questão é: como desenvolver uma nova estratégia capaz de responder ao que muitas pessoas, nas bases das nossas sociedades, desejam e precisam?
A experiência da Hungria nos últimos 16 anos oferece lições importantes. Quando a própria democracia está em jogo, financiadores e ONGs não podem mais manter distância da política. Em vez de se concentrarem em objetivos sociais isolados, devem trabalhar de forma articulada, a partir de alianças amplas que envolvam um amplo leque de pessoas, de organizações e comunidades locais para ajudá-las a garantir mudanças.
Onde a Hungria lidera, o Brasil pode seguir o caminho trilhado, e outras partes do mundo também.
By: Graciela Hopstein, 2024 / 2025 #ShiftThePower Fellow e Barry Knight, GFCF Adviser. Os autores agradecem a Tamás Scsaurszki pela ajuda na elaboração deste artigo. Texto traduzido do inglês (original) por Martina Davidson.
[1] Knight, B. (2026). A New World is Rising: Power, Consciousness and the Renewal of the Human Story. Palgrave, Macmillan. A ser publicado em outubro 2026.
[2] Blassingame, J.W. (ed.) (1985). The Frederick Douglass Papers, Series One: Speeches, Debates, and Interviews, Vol. 3 (1855–63), Yale University Press, p. 204.
