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“Dinheiro é poder, mas conhecimento também é poder” – Conheça o programa Doar para Transformar: Rede de Filantropia para a Justiça Social

29 Jul 2021

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Esta entrevista integra uma série de diálogos realizados pela GFCF com os principais parceiros do programa Doar para Transformar, desenvolvido com apoio da Cooperação Holandesa, que investirá €24 milhões para a sua implementação e terá uma duração de cinco anos. O Programa é implantado no Brasil, Burquina Fasso, Etiópia, Gana, Quênia, Moçambique, Palestina e Uganda, sendo liderado por um consórcio integrado por quatro organizações: a African Philanthropy Network, a Kenya Community Development Foundation (KCDF), a GFCF e a Wilde Ganzen Foundation. A meta do Programa– que faz parte do programa ‘Poder das Vozes’ do governo holandês – é estimular as doações locais como forma de expressão da voz, participação cívica, solidariedade e dissidência de minorias políticas. O Doar para Transformar irá construir evidências em torno de novos pensamentos e abordagens que apoiam o desenvolvimento da filantropia comunitária.

Nesta entrevista, conversamos com a Coordenadora Executiva da Rede de Filantropia para a Justiça Social, Graciela Hopstein, e com a Assessora de Programas, Betina Sarue. A Rede tem como missão fortalecer as organizações da sociedade civil brasileiras que trabalham em prol dos direitos humanos, de igualdade racial, sexual, direitos socioambientais e com foco no desenvolvimento comunitário a partir de iniciativas voltadas à expansão da filantropia para a justiça social.

 

GFCF: Que cara tem hoje a filantropia comunitária no Brasil?

(L – R): Graciela Hopstein, Executive Coordinator & Betina Sarue, Programmes Manager at the Brazil Philanthropy Network for Social Justice

Graciela: A filantropia comunitária é uma abordagem que viabiliza a identificação de novas formas de fazer filantropia. No Brasil, falamos da tropicalização do modelo, como uma forma de reconhecer a sua relevância, implicando o reconhecimento de diversas experiências e atores que atuam no campo da filantropia antes, durante e depois do processo de colonização. A ideia é partir do reconhecimento de trajetórias e iniciativas históricas já existentes no campo. Essa mudança de paradigma vem nos permitindo enxergar o potencial que as comunidades e as minorias políticas têm de se organizar com base em seus próprios recursos e ativos, e de reconhecer o seu poder e a sua capacidade de resolver seus próprios problemas, atuando conforme as suas demandas e necessidades.

 

GFCF: Qual o significado da #ShiftThePower para vocês/sua organização?

Betina: A #ShiftThePower vem sendo integrada de forma orgânica no trabalho que fazemos com a Rede. Observamos a forma de organização das comunidades com enfoque interseccional no campo dos direitos humanos e na justiça social. Além disso, instituímos um programa que defende mudanças no ecossistema da filantropia no Brasil, especificamente com vistas a promover a pauta da justiça social e da filantropia comunitária, de forma a alavancar o apoio às ONGs e à sociedade civil que atuam com foco nas minorias políticas. Trata-se ainda de promover o acesso ao poder de maneira bastante estratégica.

Graciela: O conceito de #ShiftThePower é muito estratégico no campo da filantropia já que não temos o hábito de discutir questões ligadas ao poder. Precisamos mudar a noção de que qualquer pessoa que tem dinheiro tem poder, porque dinheiro não é o único elemento importante. Temos que reconhecer que as comunidades têm poder – o poder de se organizarem e responderem aos seus próprios desafios. Quando falamos de poder, devemos falar de forma mais ampla – dinheiro é, sim, poder, mas conhecimento também é poder. As comunidades são dotadas dos conhecimentos necessários para resolver seus próprios problemas. Temos que mudar a abordagem de entender o desenvolvimento como uma dinâmica de cima para baixo, criando soluções de baixo para cima. É importante olhar para o papel da sociedade civil na transformação de realidades e territórios de forma holística.

 

GFCF: De que forma o programa Doar para Transformar contribuirá para o avanço da filantropia comunitária ou da #ShiftThePower no Brasil?

Graciela: O programa Doar para Transformar vai ajudar a reforçar a nossa forma de atuação e a nossa área de programas. Vai impulsionar o trabalho que já estamos realizando de maneira mais estruturada dentro do ecossistema da filantropia. Embora o campo da filantropia mobilize muito dinheiro no Brasil – principalmente através de fundações familiares e empresariais – pouco dinheiro é destinado às organizações de base ou da sociedade civil. A nossa função é promover as causas e convencer os doadores brasileiros da importância de financiar as organizações de base e da sociedade civil, para efetivamente tratar as questões de justiça social e de direitos humanos.

 

GFCF: De que forma o programa Doar para Transformar conseguirá incentivar os doadores / ONGs a transferir efetivamente mais poder e recursos para as organizações de base?

Betina: A nossa estratégia é avaliar o que realmente importa e destacar os impactos. Isso nos permite aprender com as comunidades e construir narrativas que destacam o impacto da filantropia comunitária e da filantropia para a justiça social, a fim de influenciar os doadores dentro dos ecossistemas filantrópicos.

 

GFCF: De que forma os programas assistenciais prejudicam as práticas locais de doação no Brasil e como o programa Doar para Transformar pode ajudar com isso?

Graciela: Precisamos reforçar a cultura da doação no Brasil. As doações sempre chegam em situações de catástrofe, mas é importante promover a prática de doações sustentáveis, de forma que isso seja permanentemente integrado à nossa cultura. Embora exista um ecossistema filantrópico consolidado no Brasil, os recursos destinados à garantia dos direitos humanos e da justiça social costumam vir do exterior. Temos que conscientizar as pessoas sobre a importância de doar para as organizações da sociedade civil como uma forma de fortalecer a democracia brasileira.

 

Entrevista realizada por: Tarisai Jangara, Especialista em Comunicações da GFCF

Traduzido por: Dayse Boechat

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